Ilustração Paula
Dia 16 de Outubro, hoje é Legin - Legout
Hoje faz um mês que fui atropelada e
parti a minha estimada perna esquerda! Foi no dia 16 de Setembro, dia chuvoso,
neste Outono prematuro em Lisboa.
No fim do dia de fazeres e trabalho,
resolvi ir de bicicleta ao CCB, para um ciclo de palestras há muito agendada.
Quando disse em casa que iria de
bicicleta, teve logo vozes dissonantes: Pareces uma teenager, quando tomas
juízo? Não estás cansada? Vai de carro!
Mas as viagens de bicicleta convidava-me
fortemente: Fim de tarde com cores espectaculares, nuvens fortes e gordas,
contrastando com o ainda azul do céu. O chove que não chove. E o ar na cara, e
aquela sensação plena de liberdade que só quem anda de bicicleta pode ter
acesso.
Tinha dias que a minha bicicleta, a
Octávia, esperava por mim para tais intimidades.
Como esperado e já previsto a viagem até
lá foi muito boa. Revisitar caminhos não muito percorridos na zona urbana e
velha de Pedrouços/Belém. O ar forte que me penteia e dança os cabelos e o sentir-me
plena de energia e sintonia com a paisagem. Bicho humano que se desloca neste
pedaço de planeta domesticado.
Deixei a Octávia no estacionamento do
CCB, tendo o enorme privilégio de entrar sem levantar a cancela e sai sem pagar
estacionamento. Vantagem de sermos magrinhas as duas.
Quando saí da conferência lá estava nós,
orgulhosas uma da outra, ela me esperando eu cheia de vontade de irmos juntas.
Belas nuvens, turistas caminhantes,
vento que rola folhas e papeis.
Boa paisagem no caminho para casa.
Bicicletamos no passeio que é largo e a estrada nem pensar que é a Marginal!
Quando entro em Algés, a estrada e
passeios são nossos. Poucas pessoas e carros neste fim de dia. Quase noite com
as nuvens a dizer que não tarda nada, lá vão dar água.
Cruzo uma estrada, sigo no passeio que
está livre de gentes. Ciclovias é coisa
não gerada nesta urbe tão povoada que é Algés.
Tem mais uma cruzamento, faço abordagem
como quando se atravessa uma estrada pela passadeira, vejo o carro que lá vem
devagar. Sigo em frente, rumo ao passeio do outro lado da estrada. Ele irá
parar como é suposto que pare. Eu estou numa passadeira!
A meio do percurso olho para a o carro e
estou cara a cara com o condutor do veiculo. Arrepio!! Ele olha para a direita,
para a estrada que vai cruzar. Ele não olha em frente, Ele não me vê!!
Grito para o alertar. O carro está em
cima de mim. O reflexo é superior a mim: Ponho o pé sobre o capô do carro como
se fosse possível assim pará-lo. Caio e a Octávia sobre mim.
Sinto a vertigem do carro a deslizar na
minha direcção. Aqui provavelmente já teria a perna partida.
De lá para cá é uma história de
reaprendizagem de vida. Da minha história e da minha vida!