segunda-feira, 20 de outubro de 2014

20 Outubro 2014

Eu sou de esquerda! Concluí esta tendência, pelo factos observados neste meu corpinho que a terra há-de comer.

Reparei com olhos de ver, nas marcas que a vida me foi deixando no corpo, hoje, enquanto me mirava ao espelho. Foi depois do banho, na rapidez que os gestos imprimem pela manhã, mesmo para quem está de perna inválida e teoricamente sem nada para fazer.
Reparo nas minhas tatuagens, as tais, talvez mais genuínas, porque foram feitas sem opção de escolha.
As minha tatuagem da vida!
Não é por serem involuntárias que as minhas tatuagem são menos simbólicas, nesta comunicação não verbal do meu corpo comigo mesma!
Não é que o meu corpo tenha precisado de muitas retificações, nem muitas mudanças de peças. Mas em tantos anos, a tendência é elas aumentas e não o seu inverso

Mas voltando ao começo desta reflexão matutina: Todas as minhas marcas profundas se localizam no meu lado esquerdo do corpo. Até aquelas que só sem veem sem olhos, até essa se guardam no mesmo lado do peito, no mesmo lado do corpo.


quinta-feira, 16 de outubro de 2014

                                                                                                                    Ilustração Paula 

Dia 16 de Outubro, hoje é Legin - Legout 
Hoje faz um mês que fui atropelada e parti a minha estimada perna esquerda! Foi no dia 16 de Setembro, dia chuvoso, neste Outono prematuro em Lisboa.

No fim do dia de fazeres e trabalho, resolvi ir de bicicleta ao CCB, para um ciclo de palestras há muito agendada.
Quando disse em casa que iria de bicicleta, teve logo vozes dissonantes: Pareces uma teenager, quando tomas juízo? Não estás cansada? Vai de carro!
Mas as viagens de bicicleta convidava-me fortemente: Fim de tarde com cores espectaculares, nuvens fortes e gordas, contrastando com o ainda azul do céu. O chove que não chove. E o ar na cara, e aquela sensação plena de liberdade que só quem anda de bicicleta pode ter acesso.
Tinha dias que a minha bicicleta, a Octávia, esperava por mim para tais intimidades.
Como esperado e já previsto a viagem até lá foi muito boa. Revisitar caminhos não muito percorridos na zona urbana e velha de Pedrouços/Belém. O ar forte que me penteia e dança os cabelos e o sentir-me plena de energia e sintonia com a paisagem. Bicho humano que se desloca neste pedaço de planeta domesticado.
Deixei a Octávia no estacionamento do CCB, tendo o enorme privilégio de entrar sem levantar a cancela e sai sem pagar estacionamento. Vantagem de sermos magrinhas as duas.

Quando saí da conferência lá estava nós, orgulhosas uma da outra, ela me esperando eu cheia de vontade de irmos juntas.
Belas nuvens, turistas caminhantes, vento que rola folhas e papeis.
Boa paisagem no caminho para casa. Bicicletamos no passeio que é largo e a estrada nem pensar que é a Marginal!

Quando entro em Algés, a estrada e passeios são nossos. Poucas pessoas e carros neste fim de dia. Quase noite com as nuvens a dizer que não tarda nada, lá vão dar água.
Cruzo uma estrada, sigo no passeio que está livre de gentes.  Ciclovias é coisa não gerada nesta urbe tão povoada que é Algés.

Tem mais uma cruzamento, faço abordagem como quando se atravessa uma estrada pela passadeira, vejo o carro que lá vem devagar. Sigo em frente, rumo ao passeio do outro lado da estrada. Ele irá parar como é suposto que pare. Eu estou numa passadeira!
A meio do percurso olho para a o carro e estou cara a cara com o condutor do veiculo. Arrepio!! Ele olha para a direita, para a estrada que vai cruzar. Ele não olha em frente, Ele não me vê!!

Grito para o alertar. O carro está em cima de mim. O reflexo é superior a mim: Ponho o pé sobre o capô do carro como se fosse possível assim pará-lo. Caio e a Octávia sobre mim.
Sinto a vertigem do carro a deslizar na minha direcção. Aqui provavelmente já teria a perna partida.
De lá para cá é uma história de reaprendizagem de vida. Da minha história e da minha vida!


quarta-feira, 15 de outubro de 2014



10 Outubro de 2014, hoje LegIn LegOut

Tem sempre aquele tendência de se achar que a causa efeito é um fenómeno, do qual somos leitores clarividentes e sábios. Dizem-me: É certinho, partiste uma perna, porque andavas de mais!, Ou, partiste a perna, porque precisavas de parar!
Isto é como as previsões dos horóscopos dos jornais, é tão genérico que acaba por bater certo. Mas eu não revejo a história da minha perninha e de todo o mim por arrasto, nestas generalizações que na verdade não me levam a ver mais fundo que causa e para onde me leva este efeito de ter partido uma perna. E nisto, será relevante ter sido a esquerda?
De facto somos crescemos e somos formados e desde sempre expectadores desta casualidade de energias que se formam em vontades assim como essas vontades geram acções. Energias que geram corpos assim como esses corpos se dissolvem, voltando à energia. De facto é assim, está na natureza e em toda a parte que assim é! Mas o que me está vedado, é saber e entender como esse “assim” funciona. Na verdade sei lá eu que causa provocou aquele efeito! E se tem algumas casualidades que se entende na superfície, cavamos mais fundo e lá vem o segredo, o mistério não revelado de causas e efeitos.
Tudo é tão rápido, o relógio sempre em urgências. O corpo que pede sempre mais. Não tenho tempo, nem silêncio para questionar e aguardar a resposta, dentro deste fenómeno subtil da energia do criar: fazer nascer, descriar, deixar morrer. Como encontrar, na minha vida, qual efeito provocou a tal causa? Qual alegria me levou aquela tristeza. E também como aquele tristeza se tornou alegria em mim?

Agora parada num sofá, como neste momento, sem relógio, só com o meu corpo para marcar o tempo,  poderia começar a ver melhor este fenómeno da causa efeito, perceber alguma coisinha dos mistérios da minha vida…Mas eu não vejo nada. Tem coisas que me são vedadas neste teatro da vida!





30 Setembro, hoje LegOut
Fica a sensação que partir uma perna é assim como roubar um chupa-chupa a uma criança ou passar uma rasteira a um velhinha.
Como se ficasse tão visível que tenho algo para aprender na vida que essa evidencia coloca os outros na distância.Não vá a aprendizagem chegar para todos, assim como que por contaminação.

Gente de perna partida é como gente com lepra: o impulso de sobrevivência que vive em cada um de nós diz-nos: FOGE

Legin Legout








Dia 7 Outubro, hoje é dia LegOut.

Julga-se por vezes que a coragem é igual todos os dias. Afinal não, ela é como a meteorologia, uns dias sol, outros não. 
Uns dias tudo alimenta, outros, que o estômago dói como depois de ter levado um soco. 
Quem dera a paz e a mesma tranquilidade em ambas as ocasiões.

terça-feira, 14 de outubro de 2014


28 Setembro, hoje LegIn


Hoje senti as delicias de perna partida.
Pode parecer masoquista chamar delicia a um trauma tão forte como partir uma perna. Mas delicia é poder experimentar o sublime daquilo que só é possível viver quando se tem uma perna partida.
Delicias de não ter mais nada para fazer do que aquilo que estava a fazer e fazê-lo com toda a dedicação e prazer de quem faz com todo o tempo para ser feito: Estar com a Sara, falar com ela, rir com ela, rolar com ela e no fim do caminho, descobrir que mudamos de roupa e ela está prontinha para sair à rua com os seus orgulhosos pais.
Eu, claro fico me casa, de perna estendida a ver se não incha.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

tudo começou assim:







24 Setembro, hoje LegIn-LegOut

Até agora foi em duas pernas que vivi o meu corpo. Sempre um pé na frente do outro. Assim aprendi a andar e fui andando até aqui chegar.
Muitas caminhadas duvidosas, algumas triunfais mas sempre sobre a direita e esquerda, muitas vezes vivendo o neutro de parada que estava, uma perna na lado da outra. Apoiada mais numa que noutra, mas sempre em par, em partilha certa e equilibrada entre as duas.
Muitas vezes sem saber com que pé começar uma caminhada, mas sempre em duo. Até agora, sem reparar nem valorizar a sucedido, as minhas pernas levaram o meu corpo para todo o lado.
agora vivo uma experiencia radicalmente diferente. Parti a minha perna esquerda. Depois de todo o choque e de todo o corpo se debruçar sobre o sucedido, apercebo-me que agora tenho todo o corpo para levar uma perna, em vez da perna para levar todo o corpo. eheheh